- Recentemente, duas animações da Netflix fizeram sucesso atualizando as animações dos anos 80: He-Man e She-Ra.
- Carlos Carneiro defende que é inútil comparar as animações e tentar escolher a melhor.
- Será que você se lembra? She-Ra: A Princesa do Poder foi criada no rastro do sucesso de Masters of The Universe e chegou a ser usada como motivo da queda de audiência da animação original.
- O que podemos esperar da franquia?
Nos anos 80, He-Man e os Mestres do Universo (também conhecido pela sigla MOTU – Masters of the Universe – em inglês) e She-Ra: A princesa do Poder foram desenhos animados produzidos pela Filmation sobre a linha de brinquedos criada pela Mattel. Hoje viraram outra coisa, mas… Vamos lembrar o que foi cada um?
He-Man e os anos 80
Primeiro vieram as aventuras do He-man. Seu estrondoso sucesso entre o público masculino fez com que a Mattel criasse uma linha voltada para as meninas e assim criou a She-Ra. No desenho original, as aventuras de He-man acontecem em Etérnia, e o herói atravessa um portal dimensional para o planeta Ethéria para levar a Espada da Proteção à pessoa escolhida. Lá, ele descobre que a espada é ativada quando apontada para Adora, a capitã da guarda da Horda (exército que domina tiranicamente o planeta). Depois de muito vai e vem, eles descobrem que Adora estava sendo dominada hipnoticamente e que ela era na verdade irmã do príncipe Adam (tã, tã, tãããã!) e a Horda a havia sequestrado ainda criança.
Logo, assim como seus personagens principais, os desenhos e bonecos eram gêmeos. Possuíam o mesmo estilo visual, aventuras, vilões e até compartilhavam algumas aventuras esporadicamente.
O remake de She-Ra (2018)
Em novembro de 2018 estreou She-Ra e As princesas do Poder. Distribuído pela Netflix, mas produzido pela Dream Works Animation (responsável por Voltron, Troll Hunters e outros), e capitaneado pela escritora Noelle Stevenson. Ela é originalmente dos mundos dos quadrinhos e já havia se envolvido em outras produções de animação. É interessante notar também que ela nasceu em 1991, portanto, não dá para dizer que ela cresceu enquanto She-Ra estava no auge do sucesso. Isso é relevante, pois já mostra claramente a intenção da Mattel, da Netflix e da Dreamworks de realizar um “remake” em todo o seu significado: realmente refizeram e reconstruíram o desenho quase do zero.
No original, She-Ra é um spin-off de He-Man e Os Mestres do Universo. No remake, He-Man e Etérnia não são nem mencionados. Os elementos e personagens originais continuavam lá, mas a independência fez com que todo o Universo de She-Ra ganhasse profundidade e fosse melhor trabalhado. A própria diferença no título já mostra que outras Princesas do Poder ganharão protagonismo.
O remake tem cinco temporadas, 52 episódios e terminou em 2020.
Mestres do Universo: Salvando Etérnia
Em julho de 2021 temos a estreia do novo desenho de He-Man. Também pruduzido pela Netflix e Mattel, mas com a Powerhouse (responsável por Castlevania) fazendo a animação, a produção traz Kevin Smith capitaneando as novas aventuras de Adam, Teela, e companhia.
Smith nasceu em 1970 e é um nerd profissional. Fez sucesso nos anos 90 com filmes independentes, mas hoje possui diversos podcasts e acumula trabalhos como roteirista, diretor e produtor em diversos projetos por aí. A escolha de alguém mais velho que tem envolvimento com a cultura nerd/pop não é por acaso: o objetivo da produção não era criar algo novo, e sim revitalizar o antigo. A série funciona como uma continuação do que aconteceu nos anos 80.
Até o momento foram lançados cinco episódios e mais cinco já estão terminando de ser produzidos. Há rumores sobre novas temporadas, mas nada foi confirmado ainda.
A inevitável (mas inútil) comparação de He-Man e She-Ra
Por conta de sua origem comum, e do fato de a Mattel ser dona das personagens, inevitavelmente os Remakes/Reboots/Atualizações sofrem comparações (muitas bem descabidas). Mas, como já ficou claro pelas pessoas envolvidas em cada produção, os objetivos não poderiam ser mais diferentes. Vamos entender o porquê?
Quem é o público?
A nova She-Ra visou e atingiu um novo público. Crianças e adolescentes que provavelmente nunca viram os originais puderam conhecer o mundo de Ethéria como se fosse a primeira vez. Consequentemente, o desenho traz uma representatividade de gênero, corpos, etnia e orientação sexual nunca antes vista em um desenho para um público jovem. Arqueiro tem dois pais. Duas princesas do Poder, Netossa e Spinerella, são casadas. Entrapta, outra Princesa do Poder com história riquíssima, está no espectro autista.
Nenhuma dessas representatividades é forçada ou fica com cara de “cota”. Todas fazem parte da forma orgânica do universo e das histórias e representam o que o público jovem de hoje já vê cada vez mais divulgado e conversado nas redes sociais. She-Ra e as Princesas do Poder é um desenho para o mundo de hoje.
O novo He-Man, no entanto, não.
O público-alvo é o mesmo que assistiu o desenho nos anos 80. O esforço de diferenciar do original é inexistente; pelo contrário, ele se orgulha de ser o mais parecido possivel com o original, em todas as suas qualidades e defeitos. Nas palavras de Kevin Smith: “É exatamente o que você assistiu, só que agora eles podem dar espadadas uns nos outros” (nos anos 80 o He-Man nunca usou a espada para acertar ninguém por conta das crianças).
Desenhos diferentes, mesmas críticas
Ambas as produções foram e estão sendo bem-sucedidas. Mattel está vendendo bonecos, ambas são sucesso de críticas e as duas series atingiram seus públicos.
Maaaaaaaasssssss há sempre aquela minoria que gosta de chatear. Deixo claro aqui, que ninguém é obrigado a gostar de nenhum dos desenhos e nenhum deles é perfeito. Todavia, se é para reclamar, reclame como se estivesse no século XXI, por favor. Em She-ra, reclamaram que a protagonista não estaria “bonita o suficiente” (digo bonita, mas as palavras que lí por aí eram outras); em He-Man reclamam que a Teela está “masculinizada”.
Felizmente uma coisa é certa: mesmo com objetivos diferentes, cada produção aumentou a representatividade do seu jeito. Teela realmente ganhou mais espaço, mesmo com todo o plot sendo sobre Adam/He-Man e as consequências das decisões dele. Maligna também. As duas personagens, inclusive, têm um diálogo (que não passa no teste de Bechdel, pois estão conversando sobre seus respectivos relacionamentos) que basicamente mostra como as duas personagens sempre viveram à sombra de He-Man e Esqueleto.
O que vem por aí?
Espero que Netflix, Mattel, Powerhouse e Kevin Smith continuem focando na história que querem contar e ignorando comentários e reclamações descabidas. Estou curioso sobre como vão continuar a série e quais ideias poderiam estar a caminho considerando a possibilidade de existirem novas temporadas. Acompanhem a gente por aqui para falar mais a respeito.
Por enquanto, fique com o trailer da primeira temporada de Mestres do Universo: Salvando Etérnia:


