Em 1866, ao longo ano, o escritor russo Fiodor Dostoiévski publicou os capítulos de uma de suas principais obras. O romance Crime e castigo se tornou um clássico da literatura mundial, se constituindo em um denso estudo psicológico sobre a violência e o impacto da sociedade sobre a mente humana.
O livro se passa em torno de Raskólnikov, um jovem estudante que vive na pobreza e procura formas de tentar sobreviver. Para tanto, em certo momento, planeja o assassinato da senhoria do apartamento onde mora, para poder roubar seu dinheiro. O crime é perpetrado e a maior parte da obra se passa em torno da narrativa das consequências do crime para Raskólnikov.
Esse enredo parece sem originalidade, em meio à massificação de histórias de investigação policial que vem se fazendo nas últimas décadas. Contudo, Crime e castigo, ao centrar sua narrativa na psicologia do protagonista, se coloca muito à frente de qualquer história policial que se tenha realizado antes ou mesmo depois de Dostoiévski.
Como o fez em outras obras, Dostoievski mostra um retrato do sofrimento dos trabalhadores na sociedade russa da segunda metade do século XIX. Sem se comprometer com as descrições pretensamente realistas de alguns de seus contemporâneos, explora a subjetividade de seus personagens, conseguindo fazer o leitor sentir de forma bastante viva o sofrimento daquelas pessoas.
Com isso, acaba por desenvolver de certa forma um estudo sobre a personalidade de um assassino. Muito antes da análise comportamental, tão em voga em dezenas de séries policiais da televisão, e se diferenciando de autores que se limitavam ou à exposição do raciocínio lógico ou da análise de evidências, Dostoievski vai nos mostrando como aquela sociedade degrada física e psicologicamente seus personagens, em especial Raskólnikov.
Raskólnikov, inclusive, fantasia sobre possuir uma espécie de direito para matar. Em um texto seu, comentado no romance, Raskólnikov define as pessoas como “vulgares” e “invulgares”. Os “invulgares”, nos quais obviamente Raskólnikov se incluíam, seriam aqueles que, em suas trajetórias, tudo sacrificam para oferecer algo novo ao mundo, sendo, portanto, indispensáveis até mesmo após sua morte. Sua senhoria, por certo, estaria entre os “vulgares”.
O mais marcante da obra passa pela descrição do sofrimento provocado pela culpa, que ocupa largas páginas da obra. O uso do suspensa é uma forte marca, com Raskólnikov temendo ser descoberto e preso. Em meio a isso, vemos a subjetividade culpada de um criminoso sendo descrita em detalhes raramente vistos na literatura.
O romance é uma obra-prima, que mostra um dos momentos mais brilhantes de Dostoiévski. Por outro lado, ainda que não possa ser necessariamente visto como uma obra policial, mostra lições para a escrita dessas histórias de tal forma a ser ainda na atualidade algo marcante e poucas vezes alcançado.


