Explorando um universo mutante

No ano passado iniciei, com a ajuda entusiasmada de alguns amigos, o projeto de reunir em livros análises acadêmicas sobre as recentes produções cinematográficas e televisivas das aventuras dos heróis da DC e da Marvel. Esse projeto gerou o livro Para Além dos X-Men (mais informações aqui), publicado pela editora Todas as Musas. Em textos escritos por colaboradores nacionais e internacionais, analisamos as aventuras cinematográficas dos X-Men, os filmes solo de Wolverine, as ações publicitárias utilizadas na divulgação de Deadpool e, inclusive, as séries recém-iniciadas dedicadas aos mutantes, especialmente Legião.

O universo dos mutantes como interpretado pelos filmes e séries nesses últimos anos, coloca em cena fundamentalmente o debate sobre diversidade e diferença. Os mutantes, embora tenham uma genética em grande medida compartilhada com o restante da humanidade, apresentam algumas características biológicas diferenciadas. Podem ser desde poderes como a telepatia até diferenças físicas. A maior parte desses seres humanos com características especiais são representados como o Outro em uma sociedade que usa o preconceito e a exclusão para garantir o poder para um grupo bastante particular – homens, brancos e heterossexuais.

A história dos mutantes, expressa em grande medida o contexto das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Suas histórias são um combate ao preconceito e a defesa da necessidade de lutar pela tolerância entre as duas “espécies”. Contudo, depois de décadas ou mesmo de séculos de opressão e massacre, uma parcela dos mutantes não suporta mais ser excluída da sociedade e escorraçado somente pelo fato de ser supostamente diferente do restante da humanidade. Em função disso, alguns grupos de mutantes deixaram de lado a luta pela tolerância e passaram ao embate aberto, com objetivo de que a humanidade que se autodenomina “normal” seja escravizada ou mesmo destruída. Em grande medida essa é a perspectiva de grupos como o Clube do Inferno e algumas das Irmandades, como a liderada por Magneto.

Como era de se esperar de produções inseridas na cultura da mídia, prepondera o discurso da colaboração e da pacificação, encarnado pelos X-Men, nos filmes, e pela Resistência, na série The Gifted. Contudo, a vivacidade como são mostradas as formas de opressão, a violência sofrida e a exclusão a que são submetidas os mutantes torna difícil pensar que a conciliação possa ser uma saída viável. Essa realidade fica ainda mais clara quando se pensa que muita dessa violência tanto concreta como simbólica é muito semelhante aquela sofrida por mulheres, negros, indígenas, homossexuais e outros grupos que sofrem diariamente com o preconceito ou são marginalizados por causa de suas características físicas.

Esse é o espírito que anima os textos reunidos no livro, mostrando a diversidade e, em especial, que os mutantes são uma representação de tolerância, de crítica à construção do discurso do “outro” e da necessidade de superação da realidade que constrói a separação.

Destaca-se, ademais, que está em fase de produção um segundo volume, que reunirá textos acadêmicos sobre as adaptações televisivas dos super-heróis da DC e da Marvel, em especial aqueles do chamado Universo Arrow e de Os Defensores. O novo livro encontra-se em fase de edição dos textos e de realização de uma “vaquinha” (contribua aqui) para cobrir parte de seus custos, devendo ser publicado em maio de 2019.

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