Faye Dunaway approaches Natasha Richardson in a scene from the film 'The Handmaid's Tale', 1990. (Photo by Cinecom Pictures/Getty Images)

Uma distopia contemporânea

'O Conto da Aia' foi escrito por Margaret Atwood e publicado em 1985

Muitas distopias se mostraram impactantes, menos por fazer previsões sobre o futuro, e mais por expressar as contradições da sociedade em que foram escritas. Este é o caso de obras como os romances Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell. Outra obra de grande impacto por certo é O Conto da Aia, escrito por Margaret Atwood e publicado em 1985.

Gilead

Essa história, posteriormente adaptada para o cinema e para a televisão, é contada por uma mulher chamada Offred, que vive na República de Gilead. Trata-se de uma sociedade rigidamente patriarcal e autoritária, baseada em uma interpretação extremista da Bíblia, onde as mulheres são totalmente subjugadas e desprovidas de direitos.

Offred, a protagonista da história, é uma mulher que era casada e tinha uma filha antes da ascensão de Gilead. Offred é agora uma Aia, ou seja, uma das poucas mulheres férteis, forçadas a servir como concubinas para a elite governante com o objetivo de reproduzir. Seu nome significa “de Fred”, indicando a posse pelo Comandante Fred, para quem ela serve.

Offred vive na casa do Comandante e de sua Esposa, Serena Joy. Serena Joy é uma mulher amargurada pela situação, antes uma figura pública proeminente que defendia os valores que agora a aprisionam. As Aias são sujeitas a uma cerimônia ritualizada de estupro por seus Comandantes, enquanto as Esposas assistem, com o objetivo de conceber crianças.

No meio dessa opressão, Offred mantém uma relação secreta e perigosa com Nick, o motorista da casa do Comandante. Nick e Offred desenvolvem um relacionamento íntimo que dá a ela um vislumbre de liberdade e amor. Além disso, o Comandante começa a levar Offred a encontros clandestinos, onde ela experimenta um vislumbre do mundo de antes de Gilead.

Outro mundo?

Ao longo do livro, Offred revela mais sobre como Gilead surgiu. A queda da sociedade anterior foi causada por crises ambientais e uma baixa taxa de natalidade, o que levou ao golpe teocrático. As mulheres perderam rapidamente seus direitos, incluindo o direito ao trabalho e à propriedade. O novo regime impôs um controle rígido sobre todos, com castigos severos para quem desobedecesse às regras.

Offred faz amizade com outra Aia, Ofglen, que faz parte de um movimento de resistência conhecido como “Mayday”. Ofglen incentiva Offred a espiar o Comandante, na esperança de obter informações que possam ajudar a derrubar o regime. Offred, porém, está dividida entre a esperança de escapar e o medo das consequências.

A vida na República de Gilead é vigiada de modo permanente, com controle rigoroso nas ruas feito por soldados. Não são só as mulheres as vítimas da República de Gilead. Por exemplo, os gays nesse contexto de opressão são considerados traidores e por isso acabam por ser assassinados brutalmente, levados à forca. Os médicos que praticavam aborto antes da República ser instaurada também não escapam da perseguição e são condenados à morte.

Offred descreve suas experiências e sentimentos com um tom de resignação e desespero. Mas ela também encontra momentos de esperança e resistência, seja através de suas memórias do passado ou de suas interações com Nick e Ofglen. Esses momentos a ajudam a manter sua sanidade e a esperança de um futuro melhor.

O final do livro é ambíguo. Offred é finalmente levada de casa por homens que se identificam como membros de “Mayday”, mas ela não tem certeza se está sendo resgatada ou presa. Seu destino é deixado em aberto, mas sua narrativa termina com um tom de esperança de que a resistência possa vir a triunfar sobre a opressão de Gilead.

Legado

Em 1990, o livro ganhou uma adaptação para o cinema, tendo Robert Duvall no papel de Comandante. Contudo, a obra ganhou maior notoriedade a partir da série de televisão, detentora de numerosos prêmios, protagonizada pela atriz Elisabeth Moss, lançada em abril de 2017. Em meio ao crescimento da extrema direita, a série acabou impactando como uma crítica contemporânea às ideias negacionistas e fundamentalistas difundidas por governantes em todo o mundo.

Essa história, como qualquer distopia, apesar das diferentes interpretações que possam ser apresentadas nas adaptações e na própria sequência do livro publicada pela própria autora, aponta para a necessidade de refletir sobre o papel político e social ocupado pelas mulheres e para a superação de quaisquer formas de opressão e violência. Essa obra também aponta para os riscos da imbricação entre política e religião, em especial quando afetam as ações do próprio Estado.

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