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‘The Wall’ e os muros a derrubar

O último trabalho da banda com o vocalista e baixista Roger Waters

Passaram-se mais de quarenta anos desde o lançamento de The Wall. Um dos álbuns mais famosos do Pink Floyd, trouxe um conjunto de músicas que, além de refletir sobre a crise vivenciada em sua própria época, faz uma crítica histórica e social mais ampla. Pink, o protagonista da história contada, vive tendo delírios sobre ser um ditador. Este foi o último trabalho da banda com o vocalista e baixista Roger Waters.

O disco ganhou grande notoriedade muito em função da música Another Brick In The Wall, cuja mensagem de libertação foi difundida em todo o mundo. Nessa música, repetida à exaustão décadas após décadas, fala-se de uma sociedade que, por meio da educação, molda pessoas, como se fossem tijolos em um muro. Essa homogeneização se manifesta, na atualidade, tanto na padronização de conteúdos como na perspectiva de censurar professores nas escolas.

Outro fato que ajudou na notoriedade da obra foi a realização do filme baseado no álbum, dirigido por Alan Parker, em 1982. Esses fatores, associados ao grande sucesso de discos lançados pela banda em anos anteriores, em especial o álbum The Dark Side of the Moon (1973), fizeram de The Wall uma das obras mais conhecidas de todos os tempos.

Música e política

O disco expressa muitas das preocupações políticas da época. Em meio à guerra fria, se viu o avanço da corrida armamentista. Era também uma época em que se vivenciou o ascenso de governos reacionários, como os de Reagan e Thatcher. Contudo, foi também uma época de rebeliões e revoluções, que colocaram o protagonismo dos trabalhadores diante de ataques a seus direitos e da ameaça nuclear.

São muitas as reflexões que podem ser feitas em torno de The Wall, em especial por sua crítica ao autoritarismo e ao nazismo. O tema do nazismo se relaciona com a própria biografia de Roger Waters. Na música “When the Tigers Broke Free” faz-se uma referência explícita a Eric Fletcher Waters, pai do músico, que morreu durante a Batalha de Anzio, na Segunda Guerra, em 1944:

 

E o bom velho Rei George

Enviou à minha mãe uma nota

Quando soube que o meu pai se fora

Ela era, eu me recordo, na forma de um pergaminho

Com folha de ouro e tudo mais

 

Mais para a frente, fala-se na letra da música:

 

Eles foram todos deixados para trás

A maioria deles mortos

O resto deles morrendo

E foi assim que o Alto Comando tirou meu papai de mim

 

Música e autoritarismo

A música “In the Flesh”, que abre o álbum, apresenta Pink como uma figura autoritária. Em sua letra, ironiza discursos preconceituosos e comentários espalhados pela extrema direita contra diferentes setores da população:

 

E aquele parece judeu e aquele é um palhaço!

Quem deixou toda essa ralé entrar na sala?

Tem um fumando um baseado e outro com espinhas

Se dependesse de mim, eu mandava fuzilar todos vocês!

 

Em “Mother” também se explora o tema do autoritarismo, mas no contexto familiar. Na música se descreve a relação superprotetora e controladora entre Pink e sua mãe, que acaba contribuindo para a construção do muro ao redor dele:

 

Acalme-se agora, filhinho, filhinho, não chore

A mamãe vai conferir todas as suas namoradas para você

A mamãe não vai deixar nenhuma maldosa passar

A mamãe vai esperar acordada até você entrar

A mamãe vai sempre descobrir por onde você anda

A mamãe vai manter seu filhinho saudável e limpinho

 

Música e saúde mental

Outro tema que aparece no álbum é o da depressão, mostrando Pink procurando em drogas escapes para isso. Na música “Hey You” mostra-se o desespero de Pink ao perceber o isolamento causado pelo muro que ele próprio construiu. Ouve-se na música um apelo angustiado por conexão e ajuda, em um cenário de solidão e desespero:

 

Mas isso foi apenas fantasia

O muro estava muito alto, como você pode ver

Não importava o quanto ele tentasse, não conseguia se libertar

E os vermes comeram o interior do seu cérebro

 

Em “Comfortably Numb”, uma das músicas mais conhecidas de The Wall, é retratado o estado de emocional de Pink. Descreve-se na música como ele se torna insensível às pressões do mundo, o que se evidencia quando afirma: “Eu me tornei confortavelmente entorpecido”. Na melodia e na letra transmite-se a sensação de anestesia vivenciada por Pink:

 

Não há dor, você está regredindo

Uma fumaça de um navio distante no horizonte

Você só vem entre as ondas

Seus lábios se movem, mas não consigo ouvir o que está dizendo

 

Legado

Passadas décadas, The Wall mostra-se não apenas atual, como aponta porque ainda se escuta com forte emoção sua mensagem de mudança e rebelião. Esse é o espírito que ainda anima Roger Waters, que em suas turnês sempre faz denúncias contra as experiências autoritárias que vem crescendo pelo mundo. Ouvindo o álbum, temos a certeza de que ainda precisamos derrubar muros para alcançar uma nova sociedade.

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