Este artigo contém spoilers de Pobres Criaturas (Poor Things) e menciona conteúdo sensível.
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Considerado um dos melhores filmes de 2023, Pobres Criaturas é a adaptação cinematográfica do romance homônimo de Alasdair Gray, dirigida por Yorgos Lanthimos e roteirizada por Tony McNamara. Misturando fantasia steampunk, humor ácido e cenas de forte conteúdo sexual, o longa apresenta uma releitura ousada e feminista do clássico Frankenstein, equilibrando bizarrice e profundidade temática de forma surpreendente.
Mesmo com seu tom excêntrico e momentos perturbadores, o filme mantém uma narrativa clara, seguindo a estrutura tradicional da “jornada do herói” — o que o torna acessível para um público mais amplo. Ao final, sobra muito espaço para reflexões sobre identidade, sexualidade feminina e resistência a normas opressivas.
Enredo de Pobres Criaturas
A trama acompanha Bella Baxter (Emma Stone), uma mulher criada pelo excêntrico cientista Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe). O corpo de Bella pertence a uma mulher que morreu por suicídio, mas seu cérebro é de um bebê ainda vivo. Sob a supervisão do assistente Max McCandles (Ramy Youssef), ela amadurece rapidamente em todos os sentidos.
Quando Max lhe propõe casamento, Bella aceita, mas decide antes conhecer o mundo. Fugindo das restrições impostas por Baxter, ela parte com o sedutor e impulsivo advogado Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), vivendo experiências intensas e explorando sua sexualidade durante uma viagem pela Europa.
A volta a Londres e o clímax
No retorno a Londres, Bella descobre que Baxter criou outra mulher adulta com cérebro infantil, chamada Felicity (Margaret Qualley), e finalmente entende sua própria origem. Inspirada pelo desejo de ajudar os outros, decide estudar medicina, mesmo enfrentando preconceito e sendo rotulada como “prostituta”.

O destino muda novamente quando Duncan reaparece com Alfie Blessington (Christopher Abbott), marido da antiga Victoria — identidade original do corpo de Bella. Alfie quer aprisioná-la, controlar sua vida e até submeter-se a um procedimento de mutilação genital. Diante da ameaça, Bella reage e, num desfecho irônico, leva Alfie ao laboratório de Baxter para uma cirurgia… que resulta em seu cérebro sendo substituído pelo de um bode.
Temas e simbolismo
A jornada de Bella é uma história de autoafirmação e emancipação feminina. Ela passa da total dependência para a autonomia completa, enfrentando o sofrimento humano e se tornando uma mulher capaz de decidir seu próprio destino.
A narrativa segue a estrutura da Jornada da Heroína, conceito proposto por Maureen Murdock, que destaca o crescimento interno da protagonista. Assim como no filme Barbie, também lançado em 2023, a personagem é uma criação artificial que rompe barreiras e redefine o papel feminino na sociedade.
Diferenças entre o livro e o filme
Embora preserve o humor e o espírito surrealista do romance de Alasdair Gray, Pobres Criaturas altera pontos importantes:
- A história é contada pela perspectiva de Bella, e não por Max (como no livro).
- O cenário principal muda de Glasgow para Londres.
- O final é menos sombrio, com o general Blessington vivo — mas com um cérebro de bode, marca registrada do humor peculiar de Lanthimos.
- Não há relação sexual ou romântica entre Baxter e Bella, reforçando o papel paternal do cientista.
Confira o trailer de Pobres Criaturas:


