‘Pecadores’ e o cinema de horror no Oscar

Filme foi um marco do gênero da sétima arte

Embora o cinema de horror não tenha levado seu principal prêmio, a mais recente edição do Oscar foi um marco fundamental para o gênero. Concorrendo com os dramalhões e histórias repetidas que sempre estão presentes, Pecadores conquistou quatro prêmios. Com isso, ultrapassa Drácula, de Francis Ford Coppola, que havia levado três prêmios, no começo da década de 1990.

Nas disputas que travou, Pecadores garantiu a Michael B. Jordan, em sua primeira indicação, o prêmio de melhor ator. Ryan Coogler, que também concorria como melhor diretor, levou o prêmio de melhor roteiro. Autumn Durald Arkapaw se tornou a primeira mulher a ganhar o prêmio de melhor fotografia. Ludwig Göransson ganhou o prêmio de melhor trilha sonora original. Esses são os quatro prêmios recebidos pelos profissionais que atuaram em Pecadores.

Na imprensa, se repercute muito o fato de o filme ter tido um maior número de categorias em que foi derrotado. Esse destaque é curioso, na medida em que, por um lado, vários filmes sequer receberam um único prêmio (como Marty Supreme, apesar da indicação em nove categorias, e Bugonia, que concorria em quatro) e, segundo, trata-se de um filme enquadrado em um gênero pouco valorizado no Oscar. Nesse sentido, não apenas os quatro prêmios de Pecadores são grandiosos, mas os três recebidos por Frankenstein (para figurino, desenho de produção e maquiagem) e o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Amy Madigan pela atuação em A hora do mal.

Por outro lado, Pecadores não é apenas um filme de horror, mas uma das expressões do processo de renovação pelo qual vem passando o gênero nas últimas décadas. O horror, desde suas primeiras expressões, por meio do gótico europeu no final do século XVIII, sempre expressou formas de crítica social. Não é por acaso que muitas dessas histórias estão associadas a castelos e fantasmas que remontam a um passado feudal, que o monstro de Frankenstein expressa a crítica romântica ao capitalismo ou que o vampiro Drácula esteja associado ao ascenso embrionário do imperialismo.

Existe um largo período em que o horror parece ter deixado de lado essas preocupações, flertando com o racismo, como em Lovecraft, ou vendo a violência física e psicológica contra as mulheres ser naturalizada, como nos filmes slasher. Contudo, sempre houve vozes que se colocaram no campo da crítica social, como David Cronenberg, George Romero e Clive Barker, entre outros.

Nos anos recentes, o cinema de horror vem tomando uma face social e até mesmo política. Jordan Peele vem levantando uma agenda antirracista brilhante, em filmes como Corra e Nós, além de ter produzido o novo Candyman. Robert Eggers traz temas relacionados às questões das mulheres, desde o brilhante A bruxa e, mais recentemente, em Nosferatu. Ryan Coogler, embora mais conhecido pelo seu trabalho em Pantera Negra e Creed, não descobriu a política agora, tendo realizado reflexões políticas em sua construção de Wakanda e nas posições explícitas que assumiu em Judas e o Messias Negro.

Os prêmios recebidos por Pecadores, em certa medida, consagram a retomada do horror em sua vertente de crítica social e posicionamento político. Por um lado, mostram que o gênero pode produzir grandes obras capazes de concorrer a qualquer premiação. Por outro, mostra que a sensibilidade de seus criadores, ao perceberem de forma mais explícita a crueldade humana, permitem construir obras que denunciam as mazelas da sociedade e apontam para a possibilidade de transformação social.

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