O trágico em ‘Lolita’

Uma das histórias trágicas mais emblemáticas da literatura do século XX

O romance Lolita (1955), de Vladimir Nabokov, é uma das histórias trágicas mais emblemáticas da literatura do século XX. Apesar de frequentemente ser interpretado, no senso comum, como uma história de amor, uma leitura atenta revela que o autor, um escritor russo exilado após a revolução de 1917, não tinha a intenção de romantizar uma relação abusiva envolvendo uma jovem adolescente.

Humbert e sua narrativa

A narrativa acompanha Humbert Humbert, um homem de meia-idade que se apaixona por Dolores, uma menina de 12 anos apelidada de Lolita. A história é apresentada como uma confissão escrita por Humbert enquanto está preso, aguardando julgamento. Ele relata sua infância em Paris e o desenvolvimento de uma atração por “ninfetas”.

Ao chegar aos Estados Unidos, Humbert se hospeda na casa da viúva Charlotte Haze, mãe de Dolores, e se casa com Charlotte para ficar próximo à menina. Após a morte acidental da mãe, Humbert assume a guarda de Dolores e a leva em uma viagem, durante a qual exerce controle e manipulação emocional sobre ela. Humbert tenta justificar seu comportamento, retratando sua obsessão como um sentimento romântico, mas o romance evidencia elementos que mostra o caráter abusivo e opressor dessa relação.

Conforme a trama avança, Dolores resiste e tenta escapar, fugindo eventualmente com Clare Quilty, outro homem com intenções abusivas. Humbert, devastado, passa anos buscando Dolores até encontrá-la grávida e casada. Sua tentativa de convencê-la a voltar é recusada. Humbert mata Quilty e, posteriormente, escreve sua confissão na prisão.

Obsessão doentia ou amor?

Narrada em primeira pessoa por Humbert, a obra acaba expressando sua visão distorcida, que tenta legitimar seus sentimentos abusivos. Nabokov, entretanto, lança diversas pistas que evidenciam o sofrimento de Dolores e criticam o abuso infantil. Isso parece ter ficado fora das versão cinematográficas, que reforçam a ideia de uma história de amor, inclusive na obra de Stanley Kubrick, lançada em 1962.

O romance é tanto uma obra literária de grande valor como uma reflexão sobre um grave problema social que persiste até hoje. Apesar de sua linguagem estilisticamente complexa e, às vezes, difícil devido à temática violenta, Lolita não pode ser confundido com uma história de amor, e sim compreendido como um alerta sobre o risco de abuso e manipulação contra crianças e jovens dentro de suas próprias casas.

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