Lançado em 2007, O Homem da Terra (Man From Earth) é um desses filmes independentes, ou “indies”, que passam batido por não contar com as máquinas de propaganda e marketing de grandes distribuidoras e plataformas de streaming. Curiosamente, seu sucesso no boca-a-boca tornou possível que ele seja facilmente encontrado no YouTube e em plataformas como Netflix e Prime Video. Mas essa é apenas uma das várias curiosidades que cercam a produção.
Dirigido por Richard Schenkman, o filme tem no roteiro de Jerome Bixby (roteirista de episódios da série clássica de Star Trek – Jornada nas Estrelas) a sua grande força. A história fala do misterioso professor John (David Lee Smith), que reúne amigos em seu chalé para uma despedida. O acadêmico vai deixar seu emprego numa universidade e se mudar, rotina que garante fazer com frequência. Os amigos têm dificuldade de aceitar que um pesquisador que tenha alcançado tanto sucesso abra mão para cair na estrada, mas ele parece irredutível.
Após muita insistência, ele revela que tem mais de dez mil anos e passa a explicar aos amigos como foi sua vida imortal até ali. Seria verdade? Ou apenas uma brincadeira? Durante a reunião, John fala de seu sentimento de preocupação com a humanidade e como viveu eventos que afetam o mundo até hoje. Do encontro com Buda até seu envolvimento com o cristianismo. Como um homem das cavernas que viveu até os dias modernos, buscando conhecimento e esclarecimento, parece não perder a esperança de que nossa sociedade seja capaz de resolver seus próprios problemas. Em meio a tudo isso, deixa claro suas limitações: vive indefinidamente e se cura sozinho, mas precisa se alimentar e ainda pode ser ferido. A extensão dos perigos ou riscos que pode sobreviver, nunca tentou descobrir.
O filme tem todo o jeito de uma peça de teatro, com muitos diálogos e praticamente apenas uma locação. Bixby era um roteirista acostumado à TV, muito antes da revolução de décadas passadas que tornou a telinha mais parecida com o cinema. Isso poderia tornar o filme cansativo ou entediante, não fosse o fato de cada fala ser cuidadosamente elaborada e dar ação dramática de primeira qualidade. Talvez tenha sido o grande trabalho do autor, que teve uma carreira interessante em cinema e TV, mas morreu em 1998, antes de ver o filme concluído nove anos depois.
Entre as peculiaridades, O Homem da Terra se conecta ao trabalho de Bixby em Star Trek. Mais especificamente no episódio Requiem para Matusalém, onde James T. Kirk e sua tripulação encontram um planeta rico em um minério essencial para a Enterprise. Infelizmente, o mundo é governado por um expatriado da Terra que se apresenta como um imortal que se tornou mais insensível à humanidade depois de assumir identidades como Leonardo da Vinci, Johannes Brams, o bíblico Matusalém entre outras.
Ocorre que algumas das ideias de Bixby não foram aprovadas e viraram inspiração para Homem da Terra. No filme, John cita que encontrou um homem tão imortal como ele e que dizia ter sido o próprio… Matusalém! Ou seja, muito antes da moda das franquias, o escritor conectou suas histórias para quem fosse atento perceber.
Homem da Terra passa longe de ser só um filme com uma boa premissa e te prende até o fim, sem efeitos especiais ou truques baratos. O clímax do final é realmente um ponto de virada impressionante que deixa aquela sensação de que o grande problema da produção é que acaba.
Posteriormente, Schenkman, Smith e parte do elenco retornou em O Homem da Terra: Holosceno, uma espécie de sequência e piloto para uma série de TV. Mas isso é papo para outro artigo. Confira abaixo o filme O Homem da Terra:


