Cerca de um ano atrás, no dia 2 de março de 2025, o cinema brasileiro estava bastante apreensivo. O Brasil novamente estava em destaque no Oscar. Contudo, desta vez, não apenas concorríamos ao prêmio de melhor filme estrangeiro. O filme Ainda estou aqui estava também na categoria principal e a atriz Fernanda Torres concorria ao prêmio de melhor atriz, repetindo o feito de sua mão, Fernanda Montenegro, em 1999.
O clima era parecido ao de vinte e cinco anos antes, com a torcida pela conquista dos prêmios por Central do Brasil. Naquela ocasião, o Brasil saiu sem nenhum prêmio. Nos anos seguintes o Brasil voltou a concorrer, com produções como Cidade de Deus, em diversas categorias, O menino e o mundo, em melhor animação, e Democracia em vertigem, na categoria de documentário.
Em 2025, foi diferente. Era óbvio que o Brasil não levaria melhor filme nem melhor atriz e, no caso de melhor filme estrangeiro, voltava o fantasma de 1999. Contudo, Ainda estou aqui conseguiu o prêmio e Walter Salles conquistou uma consagração merecida por sua longa e talentosa carreira.
Fica a dúvida se o pessoal do Oscar entendeu alguma coisa. O filme foi apresentado na cerimônia como a história de um marido que desaparece. Essa sinopse simplória poderia ser de uma comédia qualquer. Salles, em seu discurso, lembrou que o filme se tratava de uma reflexão sobre uma ditadura.
Um ano atrás, embora o cinema brasileiro tenha conquistado seu mais importante prêmio, uma parte da sociedade não ficou satisfeita. Os mesmos que propagam notícias falsas agora queriam inventar todo tipo de bobagem para desqualificar um filme premiado ampla e merecidamente em âmbito internacional. Não por acaso, esses propagadores de mentira foram os mesmos que comemoraram as tarifas comerciais dos Estados Unidos contra o Brasil.
Por certo que os filmes sobre a ditadura têm seus problemas. Expressam uma memória limitada, seletiva, que não se aprofunda em questões políticas mais delicadas. Contudo, o fato de fazermos reflexões sobre o tema e problematizar já é algo de grande importância na construção dessa memória. Para os nacionalistas de fachada, isso é algo criminoso, “doutrinação”, o que só mostra seu desinteresse pela sociedade brasileira e sua vontade única de buscar um outro messias no esgoto.
Este ano o Brasil volta ao palco do Oscar. O filme Agente secreto tenta repetir a façanha de seu antecessor, novamente colocando a história no cenário da ditadura. Fica novamente a torcida pelo filme e necessidade de continuar a discutir, problematizar e superar a ditadura.


