Inacreditável: quando a regra é duvidar

quando a regra é duvidar

Uma das séries mais angustiantes realizadas nos últimos anos foi, certamente, Inacreditável (2019), disponível na Netflix. A série tem como ponto de partida a história de Marie, uma jovem que foi estuprada, mas teve sua denúncia considerada falsa por conta do total despreparo dos investigadores. O inacreditável a que o título se refere pode ser a forma como o caso foi tratado pelo poder público.

A série se baseia em uma reportagem publicada no livro Falsa acusação (2015), de Christian Miller e Ken Armstrong. Na série, duas detetives descobrem semelhanças em casos de estupro ocorridos em diferentes localidades, passando a compartilhar suas investigações.

Em paralelo, mostra-se as consequências do estupro na vida de Marie e como a negligência policial impactou em sua vida, que acaba sendo marcada não apenas pelos traumas da violência física sofrida, mas também pelo afastamento dos amigos e outros problemas. Anos depois, com a prisão do estuprador em série, não apenas se resolve o caso de Marie, como fica evidente a falta de seriedade com que a primeira investigação foi realizada.

No primeiro episódio perdemos a conta de quantas vezes Marie precisa narrar para pessoas diferentes a história do que aconteceu. Em todas as ocasiões a imagem corta para a cena do estupro, como a nos dizer que, a cada vez que precisa contar o ocorrido, Marie está revivendo a traumática experiência várias e várias vezes. Essa tortura que vai sendo infligida a Marie obviamente faz com que sua própria mente crie barreiras e distorções, como forma de se proteger do trauma.

Esse mecanismo de autopreservação faz com que sua história apresente inconsistências. O mais curioso é o fato de que o centro da história – ou seja, o estupro – não tem mudanças, mas somente detalhes de menor importância. São esses detalhes irrelevantes que fazem a polícia desacreditar seu relato. Cansada, percebendo que a polícia não tinha nenhuma intenção de acreditar em sua história, Marie então afirma que não teria sido estuprada. Muito singelamente, ela diz é apenas que quer ir para casa.

O mundo de uma vítima desaba completamente por causa do despreparo de agentes do Estado. O erro é reconhecido apenas anos depois, quase que por acaso. Se o caso de Marie tivesse sido investigado com seriedade, outras mulheres não teriam sido estupradas e outros investigadores poderiam ter usado seu tempo em outros casos. Na série, mostra-se uma investigação a fundo de cada um dos casos. Com isso, a série mostra a negligência com que casos de violência são normalmente tratados.

Na série, mostra-se como as vítimas são frequentemente questionadas e tem sua palavra colocada em dúvida, e como as autoridades podem ser lentas em investigar os casos de estupro. Explora também a forma como a sociedade em geral lida com as vítimas de estupro, obrigando as vítimas a terem de buscar provas irrefutáveis.

Mostra-se na série, também, como as vítimas podem ser estigmatizadas e isoladas, e como a sociedade pode assumir uma postura cruel e desumana em relação à experiência traumática vivenciada pelas vítimas. Por isso, a série mostra-se necessária e urgente, como forma de fazer com que a sociedade encare não apenas o problema do estupro, mas, também, deixe de criminalizar as vítimas.

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