Retrô nerd: O Hobbit

Há 79 anos era publicado aquele que certamente é um dos grandes livros que li em minha vida. Enquanto O Senhor dos Anéis atingiu uma audiência um pouco mais velha, O Hobbit tem o vocabulário e o tamanho ideais para um público infanto-juvenil. Na primeira vez que li a obra, eu a encarei como um belo aperitivo para o banquete que me esperava em O Senhor dos Anéis.

Lendo-a pela segunda vez, tive certeza de que, muito mais do que um mero aperitivo, o livro é uma bela refeição, que deixa o leitor plenamente satisfeito, ao invés de empanturrado. Eis aqui por que considero O Hobbit uma leitura mais agradável do que a épica trilogia posterior:

Um único hobbit: Bilbo 

Ele é safo, é muito mais malandro do que todos os outros hobbits da segunda obra e não tem a irritante retidão moral do “Mr. Frodo” Samwise Gamgi. Trata-se de um oportunista, disposto a quebrar as regras quando o momento lhe convier. Enganou Gollum num politicamente incorreto desafio de charadas, roubou a Pedra Arken do tesouro protegido por Smaug e a usou como moeda de troca. Isso porque eu não mencionei o fato de ele andar com o Um Anel sob controle por boa parte da aventura.

Vários anões

Axioma: a proporção de anões para hobbits numa obra é proporcional à sua qualidade. Os anões de Tolkien são adoravelmente irritantes, exímios operários (ainda que ao mesmo tempo, atabalhoados) e extremamente talentosos ferreiros, mineiros e engenheiros. Moria está para um buraco de hobbit assim como as pirâmides do Egito estão para uma casa de pau a pique.

Gollum na dosagem certa

Na parte final de O Senhor dos Anéis, o leitor não aguenta mais ler o termo ‘precioso’ dito pelo deformado hobbit. O anel, obtido por ele após assassinar um amigo, consumiu seu corpo e alma, deixando-o completamente louco. Todos sabemos que os loucos, após um tempo de convivência conosco, tendem a nos encher o saco. Haja vista o Facebook neste período eleitoral. Enquanto em O Senhor dos Anéis acompanhamos Gollum em sua traiçoeira jornada ao lado de Frodo e Sam por centenas de páginas, em O Hobbit temos somente um capítulo de sua loucura. Perfeito.

Um dragão

Poucas imagens são tão impactantes e simbólicas de um estilo literário – no caso, a fantasia – do que a de um dragão adormecido sobre uma pilha de ouro. Embora a trilogia tenha criaturas magníficas, nenhuma delas tem a imponência de Smaug, o dragão que sequestra o tesouro dos anões e os deporta de seu lar. E mais, Tolkien não faz de Smaug um monstro, simplesmente. Sua inteligência e grandiloquência o tornam um personagem; um vilão.

Não temos Tom Bombadil

Graças a Deus.

Não há uma guerra épica

A trama de O Hobbit não poderia ser mais simples: acompanhamos a jornada de Bilbo e os anões para além das montanhas, através da floresta até a caverna de Smaug. O dragão morre, o ouro é recuperado. Ok, no fim do livro há uma contenda entre o Homens do Lago, Elfos da Floresta, Goblings e Wargs. Mas o motivo é bastante claro: o tesouro. Bem mais simplificado do que o tabuleiro do War que explica a ancestral guerra que serve de pano de fundo para O Senhor dos Anéis.

Novecentas páginas a menos para ler

Vamos ser sinceros: quem é que tem tempo de sobra hoje em dia para encarar uma obra de mais de mil páginas?

Enfim, seja qual for sua obra de preferência no universo Tolkien – e todas são maravilhosas, que fique bem claro – uma coisa é certa: O Hobbit reúne todas as qualidades necessárias para conquistar o leitor que está sendo apresentado à complexa mitologia do escritor britânico. Um brinde aos 79 anos da aventura de Bilbo, Dwalin, Balin, Kili, Fili, Dori, Nori, Ori, Oin, Gloin, Bifur, Bofur, Bombur e Thorin. Saúde!

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