Cemitério Maldito: Teria o homem o direito de tentar driblar a morte?

Baseado no livro de Stephen King, O Cemitério, Cemitério Maldito conta a história de uma família que em busca de sossego e melhor qualidade de vida, se muda para uma cidadezinha afastada, onde no meio da floresta tem um cemitério de animais de estimação e acontece uma estranha procissão envolvendo pessoas com máscaras de bicho. Só que o mais estranho é o que tem acima desse local, isto é, um outro cemitério. Porém não como qualquer outro; um cemitério, que tem o poder de trazer de volta à vida tudo o que ali é enterrado.

Para Rachel Creed, aquilo tudo é muito assustador e por isso, quer sua filha longe desse local. Ela carrega um passado de culpa devido à forma que a irmã morreu e por  internamente ter desejado isso. Justamente para não reviver seus traumas, evita falar sobre morte com seus filhos e quando fala, é sempre de uma maneira lúdica ou esperançosa sobre o que pode existir além.

Já seu marido, Louis Creed, como a maioria dos médicos, é um homem cético, racional, que só acredita naquilo que é comprovado cientificamente. Pra ele, morte é algo natural, que não tem necessidade de ser escondido das crianças, pois faz parte da vida. No início, tem dificuldade em acreditar no que Jud, seu vizinho, diz sobre as propriedades “mágicas” do cemitério, até verificar com seus próprios olhos.

Jud, é um velho viúvo e solitário que se apega à Ellie, filha do casal, desde que a conhece. Pensando na felicidade dela ou no que ele acreditava que seria o melhor pra ela, acaba envolvendo Louis numa trama que se transforma numa tragédia para todos, inclusive para ele próprio.

A questão principal do filme é se vale realmente a pena tentar vencer a morte? O homem tem o direito de interferir naquilo que está acima de sua vontade, por mais que o falecido seja alguém que ele ama? Tudo na vida tem consequências e mexer na ordem natural das coisas, só traz desequilíbrio e desastres para quem se atreve.

E voltar à vida? É mesmo algo benéfico ou em algumas situações a morte é a melhor saída? Usar o amor como justificativa para driblar a morte é um motivo plausível ou, na verdade, o que se diz amor é só egoísmo de ter a pessoa de volta, independente dos desígnios de Deus ou se ela própria quer voltar à vida ou não? E mesmo que haja amor, será que isso isenta qualquer ação humana e livra o homem da punição?

“Às vezes é melhor estar morto!”

Cemitério Maldito se destaca por sua fotografia feita com objetivo de criar uma atmosfera de mistério e terror e assim, ambientar o público naquele cenário místico e mórbido ao mesmo tempo.

Talvez por ter esse caráter mágico e sobrenatural por detrás da origem do cemitério, que está localizado em terras que pertenceram aos indígenas no passado, apesar de se tratar de um filme de terror, não tem um clima pesado, pessimista, como a maioria do gênero tem.  Mesmo tendo consequências sombrias e desastrosas, ainda conseguimos sentir um ar de esperança— ainda que uma esperança perturbadora—no meio daquele caos que aquela família se envolve.

Outro ponto alto do longa é o elenco escolhido. Eles estão em tanta sintonia um com o outro, que parece mesmo que são uma família. Principalmente o casal, formado por Rachel e Louis. É raro um filme de terror conseguir também emocionar e Cemitério Maldito cumpre essa função muito bem. Principalmente nas cenas que sucedem a trágica morte de Ellie, é impossível não se compadecer da dor daqueles pais mesmo se ainda não tivermos filhos. Isso se deve à atuação de Jason Clarke e Amy Seimetz.

Jud, interpretado por John Lithgow, também não fica pra trás. Esse personagem é muito importante, pois é através dele que a trama toda se desencadeia. Se não fosse por ele, Louis não teria feito o que fez. John conseguiu transmitir bem para o público a culpa que seu personagem sentia por ter colocado aquela família naquela situação e que tudo que ele fez teve uma motivação boa o movendo. Como ele mesmo diz, Ellie foi a primeira pessoa que foi capaz de tocar seu coração depois de anos de solidão e por isso, quer agradá-la de qualquer forma.

Faltou explicar um pouco melhor como surgiu o cemitério. Só diz muito rápido e superficialmente numa única cena entre Louis e Jud, que antigamente ali era um cemitério indígena, mas não dá muitos detalhes. Provavelmente no livro no qual o filme foi baseado, deve aprofundar melhor essa parte.

Esse não é um filme de terror que se preocupa muito em dar sustos previsíveis, criar um clima de pânico no público ou mostrar muita carnificina. Até tem esses elementos e claro, seus momentos de sanguinolência, contudo, não é algo constante como na grande maioria dos filmes do gênero e muito menos o foco deste.

É um terror mais psicológico, onde os dramas tanto internos quanto externos dos personagens, motivados por acontecimentos não só do presente, mas também do passado de cada um deles, importa mais que simples clichês clássicos do terror, que já estão bem batidos e não surpreendem mais ninguém. O que o torna muito mais interessante que os outros.

Com certeza quem assim como eu, não assistiu a primeira versão do longa, de 1989, com o mesmo nome da nova adaptação, vai ficar curioso pra conferir se é tão boa quanto a atual.

Nota: 8

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